Semana passada ouvi uma conversa interessante dentro do ônibus a caminho da faculdade. O diálogo se passava entre 2 rapazes que aparentemente se deslocavam do trabalho para suas respectivas casas. Um dos rapazes com um tom de extrema indignação comentava a respeito da situação atual da nossa política do Gerson¹, onde ele achava um absurdo o fato de que um político apesar de receber um salário exorbitante, tem a "ousadia" de aceitar propina ou desviar dinheiro público. Achei até interessante observar que nos dias atuais as pessoas possuem um certo "senso crítico" em relação a política que antes era tido como tabu. Até aí tudo bem, mas, a coisa começa a ficar um tanto "confusa" quando os rapazes pulam para a próxima pauta de sua conversa.
Depois de um certo tempo de percurso o mesmo rapaz indignado começa uma nova conversa com seu colega, tratando de como ele ficou contente com a "sorte" que lhe abençoava com 5,00R$ que recebeu de troco por engano do cobrador do ônibus. Falava que isso era algo comum e que ele merecia, já que a passagem custa tão caro por um serviço medíocre. Não discordo do rapaz sobre o serviço caro e medíocre, mas, será que isso não entra em choque com seu discurso sobre honestidade?!
Existem 2 coisas paradoxais que são bastante fáceis de se ouvir no Brasil de um mesmo sujeito: "político ladrão" e "me dei bem". Todos falam sobre uma mudança radical na política, fazem marchas e protestos pedindo a substituição dos atuais governantes por representantes do povo, os quais irão agir quase como Jesus Cristo em prol dos pobres e necessitados. Clamam uma revolução política esquecendo um pequeno detalhe: a capacidade do brasileiro de "sair por cima" onde quer que ele esteja.
Os que lutam por um Brasil melhor devem atentar para uma evolução pessoal antes de preparar seus coquetéis molotov e suas faixas de protesto. Devem lembrar que a política do futuro é feita com as pessoas do presente. Esse episódio revolucionário foi visto várias e várias vezes na história política do país onde sempre um governo que usurpava o trono do anterior conseguia agir com maior má-fé que o anterior, independente de postura ideológica regida por tal partido. De Collor a Lula as falcatruas sempre estiveram presentes mostrando que uma revolução sem evolução do povo e da própria cultura nacional de nada vale, de nada conta. Cada um deve ter a consciência de que a política e feita de pessoas e ações, esquecendo o mito do "é culpa do sistema". Enquanto o Brasil não der um jeito no seu modus operandi de levar vantagem, não haverá revolução que dê jeito na corrupção.
"Casa de ferreiro, espeto de pau".
Gerson¹: jogador de futebol que ficou famoso por um comercial de TV que dava ênfase a levar vantagem em cima de desavisados. Também protagonista da famosa "Lei do Gerson", expressão bastante famosa para designar quem tenta obter vantagem de forma desonrosa.