Estive refletindo esses dias sobre as letras de diversas músicas de funk, tentando analisar o que se passa na realidade dos garotos que cantam os famosos "proibidões", músicas com um alto teor de incentivo a criminalidade e aversão a policiais. Ouvi uma quantidade razoável de músicas, sempre prestando atenção na letra e tentando me colocar no lugar do autor da letra, para então, tentar compreender ao menos 1/100 daquela realidade.
As músicas geralmente não tem qualquer tipo de censura quanto a palavrões, apologia à violência, ao tráfico de drogas, a ostentação e ao apelo sexual. Quem encara esse tipo de letra de primeira vez não consegue enxergar nada além do simples esbanjar do "favelês" e da violência extrema, porém, o buraco é mais fundo do que se espera.
As crianças que nascem meio a realidade das favelas do Rio de Janeiro são condicionadas a uma realidade cruel e violenta, coisa que acompanhada de uma educação precária faz com que o incentivo ao conhecimento seja mínimo. Ser o "dono do morro" passa a ser o objetivo de vida de quem cresce dentro daquela atmosfera que para nós de fora aparenta ser de pura violência, mas para eles, a violência é apenas um detalhe. A emoção de ser um criminoso, um traficante, ou portar armas de fogo como forma de ostentação chega a ser um motivo de orgulho, de ser "o cara". A questão dos jovens enxergarem um futuro brilhante como um "mestre" do crime ao invés de uma vida como mestre em uma profissão qualquer.
A questão X seria: apenas o incentivo a educação que tanto é cobrado vai fazer com que o Joãozinho que nasce no Dendê queira mudar a sua realidade? Será que o garoto vai deixar de achar bonito posar para fotos com um fuzil AR-15 e uma pistola .40 presa no calção? Será que o simples fato da infra-estrutura das escolas melhorarem vai desmistificar a cabeça do garoto sobre a vida de ouro meio ao tráfico de drogas dentro das favelas?
Acho que o problema não está somente em reverter mais dinheiro para educação, mas, no modo que essa educação é feita. Depois de ouvir tantas músicas prestando atenção aos mínimos detalhes pude perceber que é uma questão de honra: crescer em meio ao tráfico, esbanjar das suas "dádivas" e morrer como "homem", coisa que na realidade das favelas consiste em morrer em meio as trocas de tiros contra a ação policial.
Na minha humilde opinião isso está longe de ser morrer como homem. Eu que sou um "homem de números" não tenho tantas sugestões para esse problema. Mas vocês que despendem tanto tempo estudando esse tipo de coisa, acham que a realidade pode ser transformada? Como?
"Na faixa de gaza eu sou homem bomba, na guerra é tudo ou nada".
*Agradecimentos a Neto Silva e Frederico Bezerra por me fazer despertar a curiosidade sobre o tema.
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